Romanos já tinham comédia há milhares de anos

Escavações recentes no sítio arqueológico de Pompeia (Itália) – cidade imortalizada pela erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C., que, ao encerrar o tempo, preservou inúmeros vestígios históricos – desenterraram murais e afrescos romanos que revelam aspectos do cotidiano e das crenças da época.

Em abril de 2024, pesquisadores da Universidade Open de Artes e Humanidades investigaram nova área de escavação na cidade italiana, ampliando o conjunto de afrescos já conhecidos e resgatando outras descobertas inusitadas do passado. Entre elas, destaca-se uma achada na Jordânia, realizada em 2016, onde pinturas do século I d.C. incorporavam balões de fala escritos em aramaico.

Afrescos romanos
Achado na Jordânia, em 2016, pinturas do século I d.C. incorporavam balões de fala escritos em aramaico (Imagem: Julien ALIQUOT/HiSoMA 2018)

Contrariando a ideia de que as artes milenares eram sempre formais e solenes, esses vestígios demonstram que, frequentemente, a arte refletia o cotidiano de forma descontraída. Nos “quadrinhos” encontrados na Jordânia – datados da época em que a região integrava a província da Judeia, na cidade de Capitolias – os textos dos balões trazem expressões, como “Estou cortando [pedra]” e “Ai de mim! Estou morto!”.

A preservação desses afrescos depende de condições naturais ideais. No caso de Pompeia, as cinzas vulcânicas atuaram como selo protetor, isolando as pinturas por mais de 1,5 mil anos, enquanto, na Jordânia, a aridez do deserto cobriu o basalto repleto de arte com uma camada que o protegeu do tempo.

Além disso, os grafites encontrados em Pompeia e Herculano – esta última também atingida pelo Vesúvio – estão reunidos no sítio Ancient Graffiti Project, oferecendo vislumbre da vida romana durante a dinastia Flaviana, por volta de 79 d.C.

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Afrescos romanos
Limpeza do local de Capitolias, com a ajuda de Dionísio e outros deuses (magem: Julien ALIQUOT/ HiSoMA 2018

Comédia entre os antigos romanos? Tinha sim!

Entre as pinturas mais irreverentes, destacam-se representações de figuras mitológicas nuas, cenas sugestivas e uma curiosa fixação por símbolos fálicos. Algumas inscrições chamativas evidenciam que, em muitos aspectos, o comportamento humano se mantém surpreendentemente similar ao de antigamente:

  • Sanius a Cornelius: vá se enforcar” – registro de uma disputa particularmente acalorada;
  • Lucilla fez dinheiro com seu corpo” – frase esculpida na fachada de uma basílica, cujo contraste enfatiza a irreverência;
  • Amplicatus, sei que Icarus está infernizando você. Salvius escreveu isso” – acompanhada do desenho de um homem de nariz proeminente;
  • O oficial de finanças do imperador Nero diz que esta comida é veneno” – provavelmente um comentário satírico sobre a má qualidade dos alimentos;
  • Restituta, tire sua túnica, por favor, e nos mostre suas partes privadas cabeludas” – inscrição na parte externa de uma taverna, evidenciando que a irreverência sempre foi característica humana.
Afrescos romanos
Zeus entre as duas Fortunas de Capitolias e Cesareia Marítima (Imagem: Julien ALIQUOT/HiSoMA 2018)

Essa reinterpretação dos vestígios históricos não só amplia o conhecimento sobre a arte e a cultura da Antiguidade, mas, também, reforça que o humor e a irreverência são traços atemporais da humanidade.

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