Poeira tóxica de Marte pode ameaçar a saúde dos astronautas

Entre os desafios mais preocupantes das futuras missões tripuladas a Marte está a poeira do planeta, que pode representar um risco significativo à saúde dos astronautas. 

Um estudo recente da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos EUA, alerta que as partículas suspensas na atmosfera marciana podem causar problemas respiratórios graves, aumentando os desafios para uma missão tripulada de longa duração.

As tempestades de poeira são fenômenos comuns em Marte. Elas ocorrem anualmente, durante o verão no hemisfério sul, e a cada cinco anos terrestres podem atingir uma escala global, cobrindo todo o planeta por semanas. Essas tempestades já causaram falhas em missões robóticas, como aconteceu em 2018 e 2022, quando os veículos Opportunity e InSight perderam energia e deixaram de funcionar.

Tempestade de poeira sobre a superfície de Marte em 2018. Crédito: ESA / DLR / FU Berlin

Mas, o que acontece com astronautas expostos a esse ambiente? O estudo destaca que a poeira marciana é extremamente fina e pode ser facilmente inalada. Na Terra, nosso sistema respiratório conta com mecanismos naturais para expelir partículas maiores, mas a poeira de Marte tem grãos tão pequenos que podem penetrar profundamente nos pulmões, causando inflamações e danos severos ao tecido pulmonar.

Composição química da poeira marciana é preocupante

Outro fator preocupante é a composição química da poeira. O solo marciano contém sílica, óxidos de ferro e metais tóxicos, como cádmio, arsênio e cromo. Essas substâncias são conhecidas por causar doenças pulmonares graves na Terra, como silicose e pneumoconiose (ambém chamada de “pulmão negro”), uma condição comum entre trabalhadores de minas de carvão expostos à inalação prolongada de poeira mineral.

A comparação com a poeira lunar também gera alertas. Durante as missões Apollo, os astronautas relataram dificuldades para lidar com o regolito lunar, que grudava em seus trajes espaciais e se espalhava facilmente dentro das cápsulas. Muitos sofreram com irritação nos olhos, tosse intensa e até visão turva. Em Marte, os efeitos podem ser ainda mais graves devido à composição química mais tóxica e ao tamanho reduzido das partículas.

Painéis solares da sonda InSight, da NASA, cobertos por poeira marciana. Créditos: NASA/JPL-Caltech

Além dos problemas respiratórios, os cientistas destacam que a poeira marciana pode intensificar outros desafios de saúde enfrentados pelos astronautas. Uma missão a Marte levaria entre seis e nove meses apenas para chegar ao planeta, exposta a microgravidade e radiação intensa. Durante esse período, os astronautas sofrem perda de densidade óssea, atrofia muscular e enfraquecimento do sistema cardiovascular.

Ao chegarem a Marte, os tripulantes precisariam passar pelo menos um ano na superfície antes de iniciar a viagem de volta. Nesse período, além da baixa gravidade (apenas 38% da terrestre), eles estariam vulneráveis a níveis elevados de radiação cósmica, que pode comprometer o sistema imunológico. Isso aumentaria o risco de complicações pulmonares decorrentes da poeira.

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Astronautas em Marte não podem contar com resgate de emergência

Outro problema crítico é a impossibilidade de um resgate rápido em caso de emergências médicas. Diferentemente da Estação Espacial Internacional (ISS), onde astronautas podem ser socorridos em poucos dias, uma viagem de retorno de Marte à Terra levaria meses. Isso significa que qualquer doença ou complicação respiratória precisaria ser tratada com os recursos disponíveis no próprio planeta.

Para reduzir os riscos, os pesquisadores recomendam que as missões adotem medidas rigorosas de controle da poeira dentro dos habitats. Sistemas de filtragem de ar avançados, procedimentos para remover a poeira dos trajes espaciais e barreiras físicas nos módulos habitacionais podem ajudar a limitar a exposição.

Imagem ilustrativa de astronautas caminhando na superfície de Marte, onde as tempestades de poeira são um grande risco à saúde humana. Crédito: Frame Stock Footage – Shutterstock

Além disso, algumas substâncias podem oferecer proteção contra os efeitos tóxicos da poeira. Estudos indicam que a vitamina C pode reduzir os danos causados pelo cromo, enquanto o iodo pode ajudar a minimizar os impactos dos percloratos – compostos químicos presentes no solo marciano que podem afetar a função da tireoide. No entanto, essas soluções precisam ser aplicadas com cautela. O excesso de vitamina C, por exemplo, pode aumentar o risco de pedras nos rins, um problema comum em astronautas devido à microgravidade.

As agências espaciais já trabalham no desenvolvimento de novas tecnologias para minimizar os impactos do regolito marciano. Entre as soluções em estudo estão revestimentos especiais para trajes espaciais, feixes de elétrons para neutralizar partículas carregadas e métodos avançados de remoção de poeira das superfícies.

Os desafios da exploração de Marte não se limitam apenas à chegada ao planeta. A sobrevivência dos astronautas dependerá da capacidade de lidar com ameaças invisíveis, como a poeira tóxica, que pode comprometer não apenas a saúde individual, mas também a viabilidade de missões de longo prazo.

Com o avanço da tecnologia e a adaptação das estratégias de proteção, a humanidade poderá superar esses desafios e dar um passo crucial para a colonização do planeta vermelho. Entretanto, os cientistas reforçam que, sem precauções adequadas, a poeira marciana pode se tornar um dos maiores obstáculos para a exploração espacial no futuro.

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